O meu filho tem TDAH – o relato da super mãe de um super filho

1964705_602687246473291_399655163_nConheci a Fatinha na internet. Um problema de saúde comum foi o mote para o início da amizade, e depois conversa puxa conversa sobre dificuldades que os nossos filhos apresentam no comportamento, a Fatinha acabou por partilhar comigo a sua história sobre o seu filho e a sua história de TDHA.

Acredito que esta seja a história de muitas mães que todos os dias lutam para que os seus filhos sejam respeitados e compreendidos. Que todos os dias procuram as melhores estratégias para que eles possam ter uma vida com as mesmas hipóteses que todos os outros.

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O que te fez pensar que o teu filho precisava de ajuda especializada?

O meu filho tinha 7 anos e apercebi-me que ele lia e escrevia ao contrario, escrevia em espelho e trocava o B com o D, o P com o Q, ou ainda o W com o M e o U com p N. Também com os números: o 34 para ele era 43 e o 45 era 54.

Eu estava em Inglaterra e ele escrevia em inglês e quando escrevia god lia dog. Estes são alguns exemplos.

Depois apercebi-me que falava para ele e ele não registava e não dava atenção às coisas. Na hora parecia entender tudo, mas virava costas e não sabia nada, e se eu lhe dava um recado ele só apanhava metade do recado.

Distraia-se muito facilmente com as coisas à sua volta, e quando fazia os deveres de casa com ele, ele rapidamente se esquecia que tinha que se concentrar no que estávamos a fazer e perguntava a que horas vem o papá? O que vamos comer hoje ? Só não pensava no caderno que tinha na frente dele.Na escola dizia-me que não tinha muitos amigos e  que os amigos diziam que ele era chato, e era inquieto quando estava sentado numa cadeira para trabalhar.

Como reagiste à situação?

A minha reação foi pensar que meu filho tinha um problema. Mas ao mesmo tempo não podia ser porque ele era tão especial para mim e aos olhos duma mãe eles são perfeitos. Entrei em negação  para fingir que aquilo ia passar e que iria ser só uma fase ou da idade. Não queremos acreditar que nosso filho é diferente dos outros, e se eu sou uma boa mãe porque é que ele tem que ter defeitos ?

Como soubeste a que deverias recorrer?

A professora já me tinha chamado atenção daquilo que eu também sentia em casa. Pedi ajuda à psicóloga da escola e fui para a biblioteca pública procurar livros que me mostrassem problemas de defice, dislexia e defice de atenção. Estes foram os que mais apareceram nos livros, por isso depressa identifiquei o meu filho naqueles sintomas. E para meu espanto ele tinha eles todos! Não ficava um de fora! Vim para casa e chorei muito e pensei meu Deus se isto for verdade, o meu filho nunca vai ser ninguém na vida! Que vai ele fazer da sua vida de adulto? Vai ser infeliz? Nunca vai ter um bom emprego? O mundo desabou em mim!

Como começaram os diagnósticos?

Depois de chorar tudo, arregacei as mangas e pensei: nem tudo esta perdido porque eu sou uma boa mãe e vou ajuda-lo! O meu filho tem que saber lutar para conseguir o que quer na vida!

Fui para a internet, procurei médicos na especialidade e encontrei uma clinica de diagnostico para crianças com cuidados especiais e  fiz logo a marcação. Fui à consulta e foi-me proposto: 4 encontros com 4 médicos diferentes para lhe fazer uma avaliação.

No fim da avaliação foi doloroso ouvir o resultado, meu filho era hiperativo tinha dislexiadéfice de atenção.Senti que tinha perdido o chão que nem me segurava de pé! Mas não desanimei e com a ajuda deles procurei saber os direitos dele junto da escola, onde lhe foi proposto ensino especial 3 vezes por semana, o ajudou muito, e aos sábados pagava a uma professora de ensino especial num centro de estudo para o ajudar também, e os resultados foram aparecendo.

Chegando ao diagnóstico correto foi mais fácil. Pois ai já sabia como poder lidar com a situação e fui adaptando as coisas à maneira dele como por exemplo: se lhe disse-se a cor vermelha é vermelha ele esquecia-se mas se lhe disse-se vermelho é a cor do sangue ai ele sabia qual era a cor vermelha, amarelo é a cor do sol ai ele sabia qual era o amarelo. Comecei a dar recados mais curtos para ele apanhar melhor. Ao falar para ele tinha a certeza que ele olhava para mim para me entender.Comecei a elogiar tudo o que ele fazia para  ele acreditar que era bom, pois nessa altura o autoestima dele estava em baixo pois já se tinha apercebido que era diferente dos outros meninos. Mas tudo isto eu fazia porque tinha lido nos livros, w não parei de ler livros sobre o assunto. E um dia fui com ele a biblioteca buscar um livro de pessoas famosas que tinham défice de atenção e dislexia e que se tinham dado muito bem na vida, e ele ficou entusiasmado com o que leu e eu também! Aquilo para mim foi como uma aspirina para a minha dor de cabeça! E pensámos os dois, afinal se nós quisermos, conseguimos vencer isto! Então redobrava-me sempre a elogiar tudo o que ele fazia, pois era importante ele pensar que era bom e inteligente.

Qual foi a reação da família?

Nessa altura eu estava a viver em Londres longe dos amigos e familiares, mas quando contei aos amigos e família o problema dele, diziam-me que eu só arranjava desculpas para os comportamentos dele, porque como era hiperativo passava por ser malandro e mal educado e saturava depressa as pessoas. E se estivéssemos num lugar fechado e pequeno e toda gente me dizia ele só é inteligente para o que ele quer,isso deixava-me muito triste!

Como é a vida dele nos dias de hoje?

Hoje meu filho tem 24 anos, está formado como engenheiro informático num curso universitário de 3 anos o qual ele demorou 5 anos a completar, mas o que importa é que hoje é um engenheiro e neste momento  está no estagio final do curso. Está inclusive já a trabalhar fazendo o que gosta e com muita responsabilidade no que faz .

Os sonhos dele e os meus tornaram-se realidade e aquilo que parecia apenas um sonho, depois de tanta luta, virou realidade! Não foi fácil, custou muito, ele tinha que estudar quando os amigos jogavam a bola, ele ficava na sala de aula quando os amigos iam para o recreio, mas nada foi em vão, o sacrifício dele e o meu valeram a pena.

Ao sábado na professora de ensino especial, ele só perguntava: porque não posso brincar ao sábado como os meus amigos? Porque tenho que estar sempre a estudar?  Hoje dá valor a tudo isso e sabe que só chegou ate aqui porque eu não desisti dele!  E quem disse que meu filho não é inteligente,  que não faz o que ele gosta, e que não é um homem de bem com a vida? Ele é feliz,  tem tudo o que sonhou conquistar.

Orgulho-me muito do filho que tenho hoje, ele é um miúdo calmo, responsável, inteligente. Que sabe falar,  estar, e toda gente adora o meu filho, e  todos dizem que é fácil gostar dele.

Que conselhos deixas para outros pais?

Posso dizer que muitas vezes adormeci a chorar porque queria orgulhar-me do filho que tinha e não sabia se ia conseguir! Mas nunca desisti, aceitei o desafio que a vida me deu e cumpri com a minha parte sem nunca desistir, ele era a coisa mais linda da minha vida e eu tinha que fazer com que as pessoas visem que era mesmo!

Com o tempo eles crescem e aprendem uma maneira de decorar as coisas para eles, à maneira deles, nós não as entendemos mas eles entendem e isso é o que importa. Só mais tarde eles compreendem que têm que se esforçar mais e acabam por descobrir isso por eles próprios. Eles são inteligentes nos é que pensamos que não, só lhe vemos os defeitos e não as qualidades,  por isso é tão importante dar elogios o tempo todo, para que sintam que gostamos na mesma deles. E se dissermos tu consegues,  ele não nos vai querer desiludir e vai-se esforçar ao máximo.

O facto de ele não conseguir apertar os cordões dos sapatos, de não decorar as coisas, de  trocar as letras e de não se concentrarem, não quer dizer que eles não se esforçam, simplesmente o lado melhor deles não é esse, pois o meu filho a falar tinha a capacidade de um adulto e todos o admiravam por isso ainda hoje admiram.

Uma vez fui a um medico que lhe fez um teste e escreveu muitas palavras que meu filho disse, e eram palavras que o medico disse serem já um vocabulário usado por uma pessoa de 18 anos e meu filho tinha apenas 8. No final o medico disse-me: você tem um filho muito inteligente, parabéns! E eu a chorar só dizia, o que é que interessa ser inteligente se não escreve nem lê como os outros, pois só o comparava com os outros no que ele falhava. Mas o que ele dizia e os outros da idade dele não, isso eu ainda nem tinha reparado, e lembrava-me do que me diziam muitas vezes, de que ele só era inteligente para o que queria. Aí pensei, se és bom numa coisa tens que ser em tudo! E depois, nós por vezes também queremos demais e não esperamos pelo tempo certo, queremos tudo para ontem!

Hoje eu digo: eu não tenho um filho diferente eu tenho um filho especial!

O meu muito obrigada à Fatinha Costa, e os meus parabéns.

A vida infelizmente por vezes leva-nos a cruzar os braços e a desistir, a da Fatinha não.

Muita Luz

Sara Aisha

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